Poetas da Geração 80

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SAMUCA SANTOS

Samuel Ferreira dos Santos nasceu no Recife em 1960.
Poeta e radialista. Samuca começou a divulgar seus tra-
balhos nas colunas de alguns jornais recifenses já nos
tempos das Edições Bandavuô, na década de 1980, um
dos grupos literários do qual faziam parte G. Vieira, Sér-
gio Lima e Fátima Ferreira, e que conviveu paralelamente
ao Movimento de Escritores Independentes de Pernam-
buco (MEIPE), do qual também foi um dos fundadores.
O grupo tinha como objetivo divulgar a poesia a partir
de publicações artesanais a exemplo do que acontecia
no eixo Rio/São Paulo com a Geração Mimeógrafo. Edi-
tavam o fanzine Agoranós que era vendido pelos edito-
res de mão em mão e com o qual se articulavam com
escritores alternativos de todo o Brasil. Sempre esteve
engajado em manifestações culturais de poesia e artes
plásticas, como Pintura e Poesia (Galeria 154 e Edições
Pirata, 1981) e A fotografia e seu poema (fotos de Flá-
vio Azevedo e organização de Héctor Pellizzi, 1989),
bem como nos recitais de rua e mobilizações literárias
alternativas. Seus poemas foram publicados em diver-
sos fanzines a exemplo do Lítero Pessimista, editado por
Francisco Espinhara, Balaio de Gato, editado por Jorge
Lopes, Americanto editado na década de 80 por Fátima
Ferreira e Hector Pellizzi e de Cara com a poesia edi-
tado por Malungo, dentre outros. Recentemente voltou
aos recitais e lançou o livro +alguns.

Livros
Nos arredores da festa - Edições Pirata,1981;
Estopim - Edições Bandavuô, 1981;
Amarginal - Edição Independente,1990;
+Alguns - Edição Independente, 2008.
7 contos & uns trocados - Ed. Coqueiro/Candieiro, 2011

Participação em coletâneas:
Movimento de Escritores Independentes de
Pernambuco 1980/1988 (Organização Francisco
Espinhara) – Edição do Autor, 2000;
Marginal Recife: coletânea poética II (organizada por
Cida Pedrosa, Miró e Valmir Jordão) – Fundação de
Cultura Cidade do Recife, 2003.

opinião crítica
_por johnny martins

A ECONOMIA DE 7 CONTOS E UNS TROCADOS

Para Edgar Allan Poe, cada palavra de um conto, da primeira à derradeira, cada frase, deveria dirigir-se sem desvios para atingir o que ele chamou de “efeito único” (single effect). Evidentemente, as ideias estéticas do grande contista do romantismo americano não podem ser seguidas à risca pelo contista contemporâneo, pois já se passaram quase dois séculos de transformações nas elaborações literárias e nas expectativas dos leitores diante de um conto. Atualmente, valem mais as considerações de Júlio Cortázar em Valise de Cronópio: “Ninguém pode pretender que só se devam escrever contos após conhecidas suas leis. Em primeiro lugar, não há tais leis; no máximo cabe falar de pontos de vista, de certas constantes que dão uma estrutura a esse gênero tão pouco classificável”. (2006, p.150).

Contudo, o novo livro de Samuca Santos, ironicamente intitulado 7 contos e uns trocados, parece radicalizar a economia proposta por Poe. O “livrim” ― como a ele se refere o próprio autor ― traz sete histórias que não ultrapassam uma página, seguidas de mais sete poemas. Uma das boas surpresas da obra é o quanto Samuca Santos consegue extrair de tão pouco. As palavras vêm como moedas na escassez: valiosas e, por isso mesmo, distribuídas com contenção para não esbanjá-las em empolamentos ou floreios. “Time is money”, nos diz a famosa máxima capitalista. E, com 7 contos e uns trocados, Samuca ironiza e faz refletir sobre a própria condição da maioria dos artistas. Quanto estamos dispostos a pagar pelo tempo investido por um artista em sua obra? E quanto tempo estamos disposto a dispensar sobre a literatura? Parece que, frequentemente, muito pouco. Por isso, as narrativas são marcadas por uma espécie de urgência, pegando situações em media res (no meio da coisa) para expressar momentos da condição humana tão familiares quanto significativos. A urgência de uma suicida, a urgência de um traficante, a urgência de um octogenário: todas estão representadas através de uma economia de palavras que revelam uma boa dose de transpiração investida na inspiração.

7 contos e uns trocados negocia com o leitor sua atenção sem muito esforço. As frases que abrem os contos ― “ela quis morrer bonita.” ou “controlar as mãos é quase impossível.” ― chegam curtas, mas bombásticas no estabelecimento da tensão e criação de expectativas. Os títulos dos contos, em no máximo duas palavras, também expõem a escassez ― financeira (taquicardia), amorosa (tchau), existencial (se foi) ― das personagens e contribuem para compelir o leitor a ir buscando durante a leitura uma relação com a narrativa e têm ainda o mérito de não parecerem vulgarmente escolhidos para fisgar a curiosidade do leitor: os títulos se revelam amplificadores do significado da narrativa, conferindo-lhes ora ironia (sacerdócio), ora dúvida quanto ao desfecho (se foi).

Em “uns trocados”, a parte poética da obra, entrevemos a experiência de leituras do autor: Lorca, Mallarmé, García Márquez, Kafka. Nada nisso, porém, diminui a originalidade de Samuca Santos, pois já não há controvérsias na constatação de que nenhum discurso é a expressão isolada de uma subjetividade: toda textualidade se desenvolve a partir de uma intertextualidade e essa mobilidade dos discursos é sempre enriquecedora quando não visa a esconder a falta de ideias próprias. Não é o caso de 7 contos e uns trocados: temos no primeiro poema um verso que acusa o pensamento de ser “destro”, palavra que vem do latim “dexter”, vocábulo que deu origem também à palavra “destreza”. De modo que o poeta se vê consciente da peleja que há entre a inspiração e o raciocínio exigido diante na formulação estética da ideia. Particularmente significativo para o conjunto da obra é o poema “eu e o beberibe” (escrito assim mesmo, com letra minúscula. Não há espaços para formas maiúsculas no “livrim”), no qual o poeta recusa aquele olhar cabralino por fora do rio em favor de uma fusão: rio e poeta se tornam uma só entidade, irmanados nas ausências e escassez do que faz do rio um rio e do homem um homem: rio e homem desfigurados “numa enchente de carências”. Assim, os poemas poderiam bem figurar como epígrafe dos contos, em número de sete: “Sete é a conta do mentiroso”, dizia minha avó nascida em Nazaré da Mata. É provável que Samuca Santos conheça o ditado e quis, como nos contos, retomar a memória discursiva do nosso povo para dizer, como Fernando Pessoa, que o poeta é um fingidor que finge “a dor que deveras sente”.





14/08/2011 Publicada por Cicero Melo

  
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